EUDIALITAS-EUCOLITAS DO MACIÇO ALCALINO POÇOS DE CALDAS, MG-SP:
QUIMISMO E CORRELAÇÕES COM COMPORTAMENTO ÓPTICO.

G.A.R. Gualda (1) & S.R.F. Vlach (2)
Departamento de Mineralogia e Petrologia, IG-USP

O grupo da eudialita inclui minerais química e estruturalmente complexos, característicos de certas rochas alcalinas agpaíticas. No maciço alcalino Poços de Caldas (MG-SP) estes minerais são essenciais, abundantes, em lujauritos e chibinitos, somando entre 5 e 15 % modal, e comuns em outras variedades de nefelina sienitos (1-5%), cf. Ulbrich (1984). Eudialitas-eucolitas de amostras representativas das principais fácies petrográficas mapeadas por Ulbrich (1984) estão sendo estudadas em detalhe. Alguns dos resultados químicos obtidos e suas implicções são apresentados e discutidos a seguir.

Ao microscópio, as eudialitas-eucolitas são xenomórficas ou mais raramente subidiomórficas e têm dimensões submilimétricas a milimétricas; aparecem ora incolores, límpidas, ora alteradas em graus variáveis para catapleitas e/ou finos agregados de aspecto micáceo associados a opacos e zeólitas; nestes casos, os relictos mais límpidos dos cristais têm plecroísmo em tons róseo-avermelhados. Na maioria das amostras estão entre os minerais de cristalização magmática mais tardia, aparecendo intersticiais a feldspato potássico, nefelina, egirina e egirina-augita; associam-se, temporalmente, com egirina tardia, sodalita e/ou analcima e diversos minerais raros, entre os quais se destacam lamprofilita, pectolita manganesífera, rinkita, giannettita e astrofilita.

Nas variedades estudadas, as eudialitas, ópticamente positivas, são facilmente diferenciadas das eucolitas, negativas, através das cores de interferência: as primeiras apresentam tonalidades acinzentadas, as segundas cores anômalas em tons azulados. Grande parte dos cristais observados mostra zonamento setorial bem marcado, definido por setores com eudialita lado a lado de setores com eucolita, ou ainda com mesodialita, esta última isótropa.

Análises químicas pontuais de eudialitas-eucolitas foram obtidas com a microssonda JEOL JXA-8600, automatizada com o sistema TN-5600, NORAN, do Departamento de Mineralogia e Petrologia do IG-USP. Elementos maiores, menores e traços, incluindo ETRL (La, Ce, Pr, Nd) foram dosados sob condições de 20 kVa e 50 nA e diâmetro do feixe eletrônico de 30 SYMBOL 109 \f "Symbol" . Os elementos F, Ba, Y, Ta, ETRM, ETRP, Th e U foram testados com varreduras detalhadas de comprimento de onda, mas as suas concentrações sempre estiveram abaixo dos limites de detecção. Os padrões utilizados encontram-se referidos no laboratório. As correções para os efeitos de matriz obedeceram ao esquema PROZA do sistema TN-5600.

Na Tabela 1 são apresentados alguns resultados representativos, acompanhados dos valores máximos e mínimos obtidos para cada óxido de todas as amostras analisadas. A comparação dos dados com equivalentes apresentados em literatura (e.g., Deer et al., 1986; Pol´shin et al., 1991) mostra que as eudialitas-eucolitas de Poços de Caldas se destacam pelos teores bem maiores em SrO (até 5,1 % em peso), Nb2O5 (até 3,5 %) e MnO (até 5,0 %) e relativamente mais baixos para FeOT (mínimo de 1,3 %). No caso das eucolitas, mesmo os valores médios de SrO e Nb2O5 são altos quando comparados com os máximos da literatura e, de fato, várias podem ser caracterizadas como variedades estroncianíferas e/ou manganesíferas e/ou niobíferas. Os teores em ETRL situam-se entre 0,30 e 2,0%, intervalo mais comum entre os pesquisados na literatura. As maiores variações composicionais das eudialitas-eucolitas foram encontradas em lujauritos e chibinitos das proximidades da Pedra Balão e, nestas rochas, verifica-se que progressivo aumento das razões Mn/(Mn+Fe) em direção as bordas cristalinas se paraleliza ao comportamento observado no zonamento de egirinas coexistentes (cf. Ulbrich, 1983). Nos demais nefelina sienitos, as variações são bem mais restritas, sugerindo intervalos de cristalização mais reduzidos.

Pol’shin et al. (1991) sugerem que a passagem de eudialitas para eucolitas se deva à formação de novos sítios catiônicos no interior dos anéis formados pelos tetraedros SiO4, ocasionando o acúmulo de cargas positivas nestes anéis associado à entrada de cátions com valências maiores, como o Sr2+ em lugar de Na+, K+ e o Nb5+ substituindo o Zr4+. Em Poços de Caldas, os resultados obtidos para um mesmo cristal atestam que os setores com eucolita apresentam teores maiores nestes elementos, com destaque para o Sr; contudo, quando se comparam as análises de diferentes cristais de uma amostra, ou de diferentes amostras, as correlações deste tipo não são diretas e, outros fatores (e.g., Si em excesso, posicionado no interior dos anéis) devem também atuar no processo.

 

Tabela 1. Análises representativas, valores máximos e mínimos de eudialitas, mesodialitas e eucolitas do Maciço Alcalino de Poços de Caldas, MG-SP, com cátions normalizados para 24 átomos de Si. P223b - Lujaurito, P462 e P653 - Chibinito.

 

P223b

MAX

MIN

P223b

MAX

MIN

P462

P653

MAX

MIN

 

P223b

P223b

P462

P653

 

Eud

Eud

Eud

Meso

Meso

Meso

Euc

Euc

Euc

Euc

 

Eud

Meso

Euc

Euc

SiO2

50.3

50.7

49.0

50.7

50.5

49.1

47.3

48.6

51.1

47.3

Si4+

24

24

24

24

ZrO2

12.1

12.6

11.5

12.1

12.4

11.8

11.6

11.4

12.1

11.4

Zr4+

2.80

2.78

2.87

2.76

TiO2

0.43

0.65

0.41

0.45

0.61

0.42

0.49

0.33

0.57

0.33

Ti4+

0.03

0.03

0.03

0.02

HfO2

0.25

0.25

0.14

0.23

0.25

0.17

0.20

0.15

0.25

0.13

Hf4+

0.15

0.16

0.19

0.12

Al2O3

0.12

0.19

0.06

0.12

0.17

0.10

0.06

0.27

0.27

0.06

Al3+

0.07

0.07

0.04

0.16

La2O3

0.14

0.51

0.05

0.12

0.37

0.11

0.72

0.20

0.72

0.15

La3+

0.02

0.02

0.13

0.04

Ce2O3

0.19

0.53

0.09

0.16

0.40

0.16

1.00

0.18

1.00

0.17

Ce3+

0.03

0.03

0.19

0.03

Pr2O3

0.03

0.06

0.00

0.02

0.03

0.00

0.00

0.00

0.06

0.00

Pr3+

0.01

0.00

0.00

0.00

Nd2O3

0.01

0.08

0.00

0.03

0.07

0.01

0.11

0.01

0.11

0.00

Nd3+

0.00

0.01

0.02

0.00

FeO

3.76

4.93

2.50

3.33

3.98

2.34

3.19

4.68

4.91

1.31

TR3+

0.06

0.06

0.34

0.07

MnO

2.47

4.32

1.72

2.39

4.46

2.14

4.08

2.30

5.01

1.99

FeT

1.50

1.32

1.35

1.93

MgO

0.05

0.09

0.03

0.06

0.08

0.02

0.12

0.06

0.12

0.03

Fe2+

1.33

1.17

1.20

1.71

CaO

10.2

10.6

8.97

10.3

10.4

9.19

9.33

10.2

10.4

9.00

Fe3+

0.17

0.15

0.15

0.23

SrO

2.37

3.81

2.00

2.62

3.06

1.58

3.63

5.11

5.11

2.24

Mn2+

1.00

0.96

1.75

0.96

Na2O

14.3

14.2

12.3

12.7

14.3

12.7

12.8

11.9

13.9

11.3

Mg2+

0.04

0.04

0.09

0.04

K2O

0.52

0.71

0.37

0.50

0.67

0.26

0.49

0.47

0.67

0.27

Ca2+

5.22

5.23

5.07

5.37

Nb2O5

0.90

1.47

0.74

0.93

1.11

0.77

3.53

2.44

3.53

0.95

Sr2+

0.66

0.72

1.07

1.46

Cl

1.38

1.49

0.89

1.49

1.42

0.88

0.87

1.33

1.47

0.86

Na+

13.23

11.63

12.59

11.39

Total

99.5

-

-

98.2

-

-

99.5

99.6

-

-

K+

0.32

0.30

0.32

0.30

O_Cl

0.31

-

-

0.34

-

-

0.20

0.30

-

-

Nb5+

0.19

0.20

0.81

0.54

Total

99.2

-

-

97.9

-

-

99.3

99.3

-

-

Cl-

1.12

1.19

0.75

1.11

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Deer, W.A.; Howie, R.A. & Zussman, J. 1986. Rock Forming Minerals, 1B. Dissilicates and ring silicates. 2nd. London. Longman.

Pol´shin, E.V.; Platonov, A. N.; Borutzky, B.E.; Taran, M.N. & Rastsvetaeva, R.K. 1991. Optical and Mössbauer study of minerals of the eudialyte group.Physics and chemistry of minerals. v. 18. pp. 117-125. Springer-Verlag.

Ulbrich, H.H.G.J. 1984. A Petrografia, a Estrutura e o Quimismo de Nefelina Sienitos do Maciço Alcalino de Poços de Caldas, MG-SP. São Paulo. 585 p. (Tese de Livre Docência, IG-USP).

Ulbrich, M.N.C. 1983. Aspectos Mineralógicos e Petrológicos de Nefelina Sienitos do Maciço Alcalino de Poços de Caldas, MG-SP. São Paulo. 369 p. (Tese de Doutoramento, IG-USP).

 

(1) Bolsista PIBIC/CNPq; (2) Orientador